Remuneração

Como mensurar o resultado de vídeos online?

Ontem, o Fernand me enviou um case de resultados online medidos por uma empresa chamada Visible Measures. Como eu não conhecia os serviços de mensuração deles, procurei me aprofundar.

1. Video Placement e Views: registra todos os “locais online” em que a URL do vídeo original (da marca) foi postado e quantas pessoas assistiram em cada uma deles. As análises consideram paródias e reproduções (vídeos dos consumidores) além dos vídeos postados pela própria marca.

A partir disso, eles fazem uma “Análise de Sentimentos” – nuvem de tags feita a partir de comentários em diversos lugares onde o vídeo foi postado. O site não diz se a análise é humana ou por rastreio de palavras. Se não for trabalho humano, é menos precisa.

Na prática: o diferencial é considerar os virais (vídeos que não foram produzidos pela marca).

Viral Video True Reach.jpg

2. Vídeo engagement: O nome é picareta. Não tem nada a ver com engajamento. A ferramenta mostra o comportamento da pessoa que está assistindo o vídeo. Capta os momentos em ela volta para rever um trecho do vídeo, pausa, pula um trecho ou desiste de ver.

Na prática: gera aprendizados sobre como podemos deixar os próximos vídeos menos chatos, pois saberemos em que momentos a pessoa que está assistindo perde o interesse no vídeo. É mais tático, mas útil para a criação.

No fim das contas, se deve analisar a usabilidade da ferramenta. Se, a partir do registro organizado das campanhas passadas de uma marca, for possível criar séries históricas dos resultados, teremos um critério menos vago para definir metas de views de vídeos. Esse critério é apenas um ponto de partida (ainda insuficiente) para a definição coerente de metas

Tendo estas metas definidas de maneira criteriosa, se pode, inclusive, pensar em remuneração variável para as agências ou produtoras que os fazem. Muitas vezes, elas recebem por job (vídeo produzido), independentemente do resultado que ele traga para a marca.

Valeu, @alphen

@diegosenise

Um mercado baseado em pensamentos ultrapassados

The Fork in the Road of Media and Communication Theory and Practice, de Jim Macnamara, é um dos artigos mais esclarecedores, azedos e inspiradores que li nos últimos tempos. Em poucas páginas, ele explica como ocorreu a evolução das teorias de comunicação até os dias de hoje e como as práticas de mercado estão baseadas em pressupostos teóricos ultrapassados. Ou seja, ao contrário do se costuma ouvir no senso comum, foi o mercado que não conseguiu acompanhar os pensamentos inovadores dos teóricos de comunicação.

Abaixo, resumo a trajetória do texto:

Os estudos sobre o efeito da propaganda de Lasswell (1927) e a Teoria Matemática da Comunicação (Shannon, 1949) formaram as bases para a Teoria da informação, que deu origem a décadas de estudos que consideram o processo de comunicação como uma injeção de informação e sentido nas audiências (Teoria da Agulha Hipodérmica).

Em 1964, a famosa frase de McLuhan (“o meio é a mensagem”) pressupõe que as tecnologias e as técnicas de mídia (particularmente a TV) são capazes de moldar a percepção e o pensamento das pessoas.

Estudos neo-marxista da Escola de Frankfurt tinham mais foco nas questões culturais e políticas, mas também partiam da premissa de que a comunicação de massa é uma poderosa ferramenta que manipulava, inevitavelmente, os receptores da mensagem. A Teoria da Agenda Setting (McCombs, 1977) deu continuidade a esta idéia, considerando que os pensamento, conversas e atitudes das pessoas são pautadas pelos assuntos trazidos à tona pela mídia de massa.

The Fork in the Road - Macnamara

Mas, alguns autores começaram a desafiar essa perspectiva hegemônica de pensamento. Katz e Lazarsfeld (1955) e Kappler (1960) começaram a discutir os efeitos limitados da comunicação, considerando que ela é mais capaz de reforçar um ponto de vista já existente nas pessoas, e menos capaz de mudar opiniões, atitudes e comportamentos. Macnamara ironiza:

“As anyone with children, married, or living with a partner knows, what we try to communicate to even those closest to us is often not received the way we intend or mean. Nevertheless this view has persisted and proved resilient.” (Macnamara 2006)

Estudos de psicologia, como a Teoria da Dissonância Cognitiva (Festinger, 1957) e o campo dos Estudos Culturais trouxeram um novo jeito de se pensar a recepção no processo de comunicação. Isso fica mais claro quando Roland Barthes (1977) decreta a “morte do autor” – o que não quer dizer que os autores (emissores das mensagens) deixaram de existir, mas que perderam sua  “onipotência” diante de uma audiência que contrói o significado da mensagem que recebe – filtra as informações e as decodifica de maneira diferente da intenção do autor.

Esta visão vai ao encontro das idéias de “Decodificação Aberrante” de Umberto Eco (1965), que também discute a contribuição do leitor para a construção do sentido do texto, usando as informações para seus propósitos próprios e rejeitando outras. Essa linha de pensamento foi mais difundida nos anos 1990 com textos sobre a Teoria de Usos e Gratificações.

Em geral, os pensadores mais contemporâneos concebem a comunicação como um modelo integrado, onde autor e audiência interagem em um via de mão dupla.

Pensando no mercado…

O trabalho dos Relações Públicas está baseado somente no antigo pensamento teórico da Teoria do Agenda Setting. Se o profissional de RP é valorizado quando consegue “colocar” um assunto específico na imprensa, assume-se que isso influenciará diretamente o leitor – o que trará benefícos diretos para a empresa.

Esta é a grande bifurcação (fork) que diferencia os caminhos que o mercado e a academia traçaram. Enquanto os estudos contemporâneos fazem novas descobertas sobre como as pessoas aprendem e decodificam sentidos de maneira complexa (teoria da aprendizagem social, psicologia cognitiva, semiótica etc.), o mercado encara o trabalho de comunicação corporativa a partir de pressupostos ultrapassados e ingênuos.

“It is not a lack of theory, but outdated and bad theory that is holding Public Relations back.” (Macnamara 2006)

Pensando em mensuração de resultados em comunicação, o maior problema dessa perspectiva é que se avalia somente os outputs (o que foi produzido, a notícia) e não os outcomes (o resultado que isso traz para o negócio).

Este é  motivo pelo qual os profissionais de RP têm pouco comprometimento com o desenvolvimento de pesquisas e métodos de avaliação. Eles parecem não ter relevância. Se o trabalho é só gerar outputs, mensurar a eficácia deles seria trabalho de outra pessoa, é claro.

Esta situação é, em parte, resultado do despreparo das universidades para fazer seus alunos relacionarem as novas teorias de comunicação com as práticas profissionais. A maioria delas só treina os jovens para a funções operacionais, como escrever releases, por exemplo.

To summarize the ‘fork in the road’ that this paper describes, Public Relations has evolved to be predominantly intuitive, author-centric and concerned primarily with producing outputs, whereas communication scholars and social scientists take an approach that is scientific, audience-centric and concerned with outcomes.

Outros artigos de Macnamara estão disponíveis no site Archipelago Press.

@diegosenise

Publicidade online se transforma em offline

A Hearst apresentou um jeito diferente da publicidade online: a impressão física de matérias online ou do conteúdo de websites.

A impressão de websites, muitas vezes, gera desperdício de várias folhas que são impressas em branco. Em parceria com a Format Dynamics, a Hearst está desenvolvendo para seu clientes editoriais formatações de páginas que, ao serem impressas, mantém as mesmas características da página vista na tela.

formatdynamics_denver_post_exmaple

Isso significa que o anunciante tem a garantia que, se o leitor imprimir a matéria para ler depois (ou mostrar para alguém), a propaganda continuará na página. É uma maneira de tentar prolongar o contato entre o conteúdo da propaganda e as pessoas. Pode ser, inclusive, mais um dos critérios para se pensar o preço da compra de espaços publicitários online.

Mas as pessoas ainda imprimem textos para ler?

Segundo Ethan Holien, CEO da Hearst, as pessoas imprimem mais conteúdos do que imaginamos. Em sites de notícias, cerca de 0,5% dos leitores imprimem notícias. Em sites de temas mais específicos, o número pode ser maior.

Via: Read Wrhite Web

@diegosenise

quarta-feira, janeiro 27th, 2010 Eficácia, Métricas, Remuneração, Web 2.0 1 Comentário

Coca-Cola: novo modelo de remuneração

Há alguns dias, a Coca-Cola anunciou que vai passar a remunerar suas agências de comunicação por resultados atingidos, não somente por mídias compradas ou fee, como é o padrão do mercado. A remuneração por performance da Coca-Cola prevê que as agências podem lucrar até 30% mais do que lucram atualmente caso consigam atingir determinadas metas. Se as metas não forem atingidas, a agência é apenas reembolsada pelos custos da campanha. O plano é que todas as agências já estejam trabalhando nesse sistema até 2011.

Teoricamente, este é o sistema mais justo de remuneração, pois ele resgata o real valor que a comunicação tem para as organizações: o resultado. Não remunera por qualidade criativa ou por volume de mídias compradas visto que estes são apenas meios para que se alcance os resultados.

Apesar de parecer justa, a remuneração por resultados exige um grande cuidado na hora de definir os critérios que vão guiar as definições de metas e, principalmente, a escolha dos parâmetros de mensuração que serão utilizados.

Fica clara, neste caso, a importância ainda maior de métricas integradas de mensuração de resultados em comunicação e marketing. Se a Coca-Cola tem este sistema integrado, já deu um grande passo porque criou uma seqüência histórica de resultados que podem ser cruzados ao longo dos anos. Assim, já tendo métricas mais sofisticadas, talvez a empresa possa chegar ao ponto de pagar seus fornecedores de comunicação baseado em resultados de maneira menos subjetiva.

Outro ponto: deve haver total transparência com relação aos métodos pelos quais as agências vão ser julgadas. Deve ser um sistema completamente aberto entre agência e cliente, que seja possível de se acompanhar ao longo das próprias campanhas, para que sejam feitos ajustes necessários.

Se não houver métricas mais complexas de mensuração e interligação dos resultados, cairemos no absurdo de um briefing que chega para a agência dessa maneira: “com a verba que eu tenho, sua meta é fazer 1000 TRPs gerarem um aumento de 1% nas vendas”. Sabemos que não é assim que as coisas funcionam… e nem deve ser.

“Métricas complexas” significa que a empresa deve considerar todos os diversos fatores que, possivelmente, são geradores de resultados tangíveis e intangíveis. Obviamente, a agência de publicidade responsável pela comunicação institucional não é a única responsável pelos resultados intangíveis relacionados ao valor da marca. Certamente, eventos, assessoria de imprensa e promoções também contribuem, de alguma forma, para os resultados da marca.

Além disso, deve-se considerar os fatores ambientais na definição das metas. Por exemplo, uma crise econômica ou um surto de doenças são fatores externos que podem influenciar nas vendas. Deve-se também haver um acompanhamento dos outros fatores dos outros Ps do marketing da Coca-Cola. Estudos econométricos devem estimar a influência desses fatores (considerando sua sazonzalidade) e estudos de qualidade devem mostrar quando há falhas que prejudicam as vendas (na distribuição, por exemplo).

Obviamente, a Coca-Cola deve ter um sistema inteligente que seja justo com seus fornecedores. Acredito que este tipo de remuneração ficará cada vez mais comum no mercado. Em minha opinião, o pagamento por resultados deve seguir, pelo menos, estes 2 critérios:
1.    Ter uma estrutura que permita a empresa fazer isso. Sem um histórico de mensuração de comunicação integrada, a definição de metas fica menos embasada e mais subjetiva.
2.    Ter um sistema que defina (por pesquisa e por consenso com os fornecedores) qual é o papel/contribuição da comunicação de cada campanha nos resultados da empresa.

Na prática não é tão fácil assim. Mas precisamos começar a discutir mais este assunto para conseguirmos evoluir. Alguém tem uma opinião?

@diegosenise

InComMetrics

é um blog que discute eficácia e mensuração de retorno de investimento em comunicação. É escrito por integrantes do Centro de Estudos de Avaliação e Mensuração em Comunicação e Marketing da ECA-USP.

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